PODEIS BEBER O CÁLICE? (Mt 20,22)
“O
cálice é um símbolo universal.” (p.68) De alguma forma, está presente em todas
as mesas e em muitas situações. São taças, copos, vasos, xicaras... usadas para
beber. “Beber juntos é sinal de amizade, intimidade e paz... Recusar uma bebida
é o mesmo que evitar o contato pessoal.” (p.68) Jesus quis beber conosco. Bebeu
do nosso cálice e nos deu o seu cálice para que bebêssemos. Para Jesus, beber o
cálice significou assumir o mistério da nossa Salvação da qual ele foi
protagonista. E nesta reflexão buscaremos entender a força do símbolo do cálice
e a graça recebida por meio de Jesus que o assumiu.
Muitas
taças e cálices falam de vitória, sucesso, heroísmos, como as taças dos
torneios, por exemplo. Outras falam de morte, como a dos profetas Isaías e
Jeremias e a de Sócrates, que bebeu uma taça com o veneno da cicuta (p.87-88). Usamos
a taça para brindar, sinal de bênção e alegria e, se um copo se quebra, dizemos
que foi um mal desfeito. O chimarrão nos é servido também numa taça, a cuia. Dele
bebemos juntos. É amargo, mas adocica a vida.
Jesus
falou do cálice. Perguntou a Tiago e João se eles poderiam beber o mesmo cálice
que ele beberia (Cf. Mt 20, 22). No jardim das Oliveiras pediu para afastar o
cálice (Cf. Mt 26,39; Mc 14,36; Lc 22,42). Na última Ceia tomou o cálice em
suas mãos e o entregou aos seus discípulos dizendo “Tomai todos e bebei. Este é
o cálice do meu sangue...” (Cf. Mt 26,27-28; Mc 14,24; Lc 22,20;
1Cor 11,25). O cálice fazia parte do cotidiano e da linguagem de Jesus.
Voltemos
à pergunta do Mestre a Tiago e João: “Podeis beber o cálice que eu vou beber?” (Mt
20, 22). “O cálice a respeito do qual Jesus falava não é um símbolo de vitória
nem de morte. É um símbolo de vida, cheio de tristezas e alegrias que podemos
segurar, erguer e beber como uma bênção e um caminho para a salvação.” (p.88)
“Beber
o cálice da vida faz nosso tudo o que estamos vivendo... Não é fácil fazer
isso. Por muito tempo podemos não nos sentir capazes de aceitar nossa própria
vida; podemos continuar lutando por uma vida melhor ou pelo menos por uma vida
diferente. Muitas vezes, um profundo protesto contra o nosso "destino”
surge em nós. Não escolhemos nosso país, nossos pais, a cor de nossa pele,
nossa orientação sexual. Nem mesmo escolhemos nosso caráter, nossa
inteligência, nossa aparência física ou nossas maneiras. Às vezes queremos
fazer tudo o que é possível para alterar as circunstâncias de nossa vida.
Desejamos estar em outro corpo, viver em outra época ou ter outra mente! Um
clamor pode vir do mais profundo de nosso ser: "Por que tenho que ser esta
pessoa? Não pedi para ser assim e não quero ser assim". Mas gradualmente,
à medida que passamos a aceitar nossa própria realidade, olhar com compaixão
nossas próprias tristezas e alegrias, e à medida que descobrimos o potencial
único de nossa forma de estar no mundo, podemos superar nosso protesto, trazer
o cálice de nossa vida até nossos lábios e bebê-lo, devagar, com cuidado, mas
até o fim.” (p.69)
“Beber
o cálice não é simplesmente nos adaptar a uma situação ruim ou tentar usá-la o
melhor que pudermos.” (p.70) Beber o cálice “é uma forma de viver com
esperança, coragem e confiança. Isso significa ficar de pé, com a cabeça
erguida.” (p.70) Todas as vezes que precisamos tomar algo no cálice ou mesmo
num simples copo é necessário erguer a cabeça.
“Também
Jesus bebeu o cálice de sua vida. Experimentou louvor, adulação, admiração e
imensa popularidade. Experimentou rejeição, ridicularização e o ódio das
massas. Uma hora as pessoas gritavam "Hosana"; outra hora gritavam
"Crucifica-o". Jesus tomou tudo isso para si, não como um herói
adorado e depois desprezado, mas como aquele que veio cumprir uma missão e
manteve seus esforços nela quaisquer que fossem as reações... O cálice que
Jesus estava disposto a beber, e que bebeu até que estivesse totalmente vazio,
tornou-se o cálice da salvação... Beber o cálice da salvação significa esvaziar
o cálice de tristeza e alegria para que Deus o encha com vida pura.” (p. 76)
“Estamos
presos pelo pecado e pela morte como em uma armadilha de caçador. As várias formas de dependência, de compulsão
e de obsessão nos dão uma ideia dessa armadilha.” (p.77) “Essas dependências,
compulsões e obsessões revelam nossas armadilhas. Mostram nosso pecado, porque
tiram de nós nossa liberdade como filhos e filhas de Deus, e por isso nos
escravizam em um mundo restrito e diminuído. O pecado nos faz querer conduzir
nossas próprias vidas de acordo com nossos desejos, ignorando o cálice que nos
é dado. Ele faz agir pela carne.” (p.77) Mas Jesus nos ensinou a agir pelo
espírito, criando comunhão com a carne. “O pecado e a morte nos aprisionam.
Beber o cálice, como Jesus o fez, é o caminho para escapar da armadilha. É o
caminho para a salvação.” (p.78). Beber o cálice significa seguir nossa vocação,
o propósito para o qual Deus nos concedeu a vida. “Viver uma vida completa é
beber nosso cálice até que ele esteja vazio, acreditando que Deus irá enchê-lo
de vida eterna.” (p. 79)
“Se
não estivermos preparados para beber nosso cálice, a verdadeira liberdade
escapará de nós...” Liberdade que “vem até nós toda vez que bebemos do cálice
da vida, bebamos um pouco ou muito.” (p.78) ‘Beber nosso cálice envolve escolha
cuidadosa das ações que nos aproximarão da tarefa de esvaziá-lo, de modo que ao
final de nossas vidas possamos dizer com Jesus: "Tudo está consumado"
(Jo 19,30). Isto realmente é um paradoxo: consumamos a vida ao esvaziá-la.’ (p.85)
“Beber
o cálice que Jesus bebeu é viver uma vida no e com o Espírito de Jesus,
espírito de amor incondicional. (p.90) “É apenas amor puro, irrestrito e
ilimitado amor. Completamente aberto, completamente livre. Essa mesma
intimidade Jesus quer nos dar para que possamos beber nosso cálice. Essa
intimidade tem um Nome, um Nome Divino. Chama-se Espírito Santo. Viver uma vida
espiritual é viver uma vida na qual o Espírito Santo nos guiará e nos dará a
força e a coragem necessárias para continuar dizendo "sim" à grande
pergunta:” (p.91) podeis beber o cálice que eu vou beber? (Mt 20, 22).
Sempre
que vamos à missa é para beber o cálice de Cristo, o cálice do seu sangue,
sangue da nova e eterna Aliança. Isso é Eucaristia. “Ao beber o cálice, bebemos
o cálice que Jesus bebeu, mas também bebemos nosso cálice. Esse é o grande
mistério da Eucaristia. O cálice de Jesus, cheio com nossa vida que transborda
para nós e para o mundo, e nosso cálice, cheio com nosso próprio sangue, tornaram-se
um único cálice. Ao beber juntos esse cálice, assim como Jesus o fez, somos
transformados em um único corpo do Cristo vivo, sempre morrendo e sempre
ressurgindo para a salvação do mundo.” (p.95)
Henri J. M. Nouwen. Edições Loyola,
SP, BR, 2002. Neste artigo, as páginas referem-se a esta obra.
Por
Pe. Nildo Moura de Melo, OSFS

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